Oscar e o celular
Luis Fernando Verissimo
O Oscar mantinha-se em contato constante com os amigos pelo telefone celular. Ninguém podia imaginar como o Oscar vivera antes da invenção do telefone celular. Ele mesmo dizia que toda a sua vida antes do celular fora uma espera, ele não sabia do quê. Com a invenção do celular, descobrira o que estava esperando. Ligava para os amigos com qualquer pretexto.
- Você está vendo o pôr-do-sol?
- Não, Oscar.
- Corre pra janela. Está espetacular.
Ligava para todos, em sequência.
- Odilon, você está vendo o pôr-do-sol?
- Oscar, eu estou no meio de uma consulta.
Odilon era ginecologista. Não podia, na posição em que atendera o telefone, estar mais longe do pôr-do-sol do que estava. Oscar repreendeu-o:
- Você não sabe o que está perdendo.
Alguns se irritavam com ele.
- Marisa, você está vendo o pôr-do-sol?
- Ó Oscar, você acha que eu sou uma desocupada como você?! Eu tenho tempo pra ver o pôr-do-sol?
- Esse você tem que ver.
- Tá bom. Daqui a pouco eu vou olhar.
- Daqui a pouco ele já terminou, Marisa.
- Quer saber de uma coisa, Oscar? Tchau!
Lineu estava vendo o pôr-do-sol, sim. De dentro do seu carro, num engarrafamento. Não, não concordava que o pôr-do-sol estava espetacular. Achava aquele pôr-do-sol um escárnio com ele e com os outros motoristas, obrigados a respirar monóxido de carbono dentro das suas caixas de aço sem poderem ir a parte alguma, aquele colorido feérico zombando da feiura urbana a que todos estavam condenados como uma fantasia de luxo zombando dos pobres. Estava odiando aquele pôr-do-sol alienado e insensível.
Já a Bea estava vendo o pôr-do-sol da sua sacada, comendo um iogurte e se deliciando com os dois. Sim, o Oscar tinha razão, o pôr-do-sol estava espetacular. Um dos melhores dos últimos tempos.
- Nota dez? - sugeriu Oscar.
- Oito. Tem uns verdes que eu estou achando meio kitsch.
Oscar não podia ficar discutindo com a Bea. Ainda precisava ligar para o Mauro, o Miro e a Roberta antes que o pôr-do-sol acabasse. E ligar outra vez para animar o Lineu, coitado, preso no trânsito.
Naquela noite reuniram-se e comentaram a obsessão do Oscar.
- É doença - sentenciou a Marisa. - Esse homem é doente. É viciado em celular.
- Riquinho - disse a Bea, carinhosamente. - Ele só quer nos agradar.
- Vocês sabem que ele já me telefonou no meio da noite? Pra dizer que estavam passando uma "reprise" de Casablanca na TV? Duas horas da manhã!
- Ele também ligou pra mim!
- E pra mim!
- É que ele nos ama - insistiu a Bea.
- Se nos ama tanto, porque está aí, há meia hora, falando no telefone sem nos dar bola?
O Oscar falava no celular, tapando o bocal com a mão para que a conversa dos outros não atrapalhasse a sua. A Marisa o cutucou.
- Ó, doente. Com quem você está falando agora?
- Não sei - disse o Oscar.
- Não sabe?!
- Liguei um número qualquer e deu numa moça simpaticíssima. Estou perguntando se ela viu o pôr-do-sol, hoje.
Domingo, 15 de julho de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.